Computadores
na educação: uma visão não-Orwelliana
George A. Miller
Num de seus comerciais de TV, a IBM - o gigante da indústria eletrônica
- mostra um consumidor muito satisfeito com a contínua queda dos preços
dos computadores a cada ano que passa. Ao contrário das muitas maravilhas
que freqüentam o vídeo, vale a pena levar em consideração
a mensagem do ator da IBM. Aliás, nos dias de hoje, merece admiração
qualquer coisa que esteja ficando melhor e mais barata.
É admirável também a capacidade da indústria do
ramo de informática de prever uma constante redução de
preços para os próximos dez anos.
Atualmente, novas tecnologias de memória estão transitando da
pesquisa para a produção numa velocidade que, em dólares
constantes, promete reduzir pela metade o preço das memórias de
computadores a cada 18 meses. O custo da memória, que sempre influiu
no preço dos sistemas de computação, está se tornando
rapidamente um fator desprezível. Esta tendência é comparável
a uma situação hipotética em que o preço dos livros
se tornasse independente do número de páginas.
No início dos anos 70, o avanço tecnológico permitiu que
pequenos, mas sofisticados, sistemas de computação - os microcomputadores
- pudessem ser oferecidos a preços de venda em torno de mil dólares.
A este preço, os mencionados sistemas passaram a ser acessíveis
às pequenas empresas, laboratórios, consultórios e escolas
- ou até mesmo aos lares de aficcionados. Os entusiastas dizem que os
preços vão cair mais ainda; prevêem uma nova era na qual
será possível concretizar belos sonhos. Fazem parte desses sonhos
os seguintes cenários: os computadores pessoais serão tão
comuns como os aparelhos de TV, embora muito mais úteis que estes últimos;
ao serem introduzidos nas salas de aula, irão salvar nossas escolas;
quando usados no lar, irão reaproximar as famílias; aprender a
programá-los fará com que nossa sociedade se torne mais inteligente.
Existirão computadores para educar os jovens, auxiliar os trabalhadores
e divertir os velhos. Ao folhear as obras produzidas em torno dessa moda (aparentemente)
passageira, ficamos convencidos de que a realidade já ultrapassou os
contornos da moda.
De acordo com os arautos dessa revolução, estamos nos aproximando
rapidamente de uma era em que as pessoas, caso possam escrever todos os programas,
não precisarão preocupar-se com quem deve escrever as leis da
nação.
Os mencionados arautos afirmam que computação é um jogo
para jovens. E mesmo que restem ainda alguns anos de vida útil para a
sociedade pré-transistor, o advento de cultura computadorizada será
inevitável. Precisamos enfrentar essa realidade e começar a educar
as crianças para nela viverem. Enquanto as crianças selvagens
formavam seus primeiros conceitos brincando com barro e as crianças da
era industrial faziam o mesmo empilhando blocos, as crianças do futuro
irão afiar suas capacidades conceituais num teclado. O fluxo da informação
e o controle de processos lhe serão tão acessíveis como
o foram tempo e espaço para seus avós. Seus hábitos de
pensamento serão orientados para metas e soluções de problemas
com toda a precisão imposta pelos algoritmos.
Tudo isso é tido como boa nova. Nunca, até então, a idealização
do homem racional despontou como algo tão plausível.
Sou menos otimista. Aceito, obviamente, que os computadores vieram para ficar,
requerem um tipo de pensamento caracterizado por um sistema fechado cujo domínio
requer muita prática, estão destinados a causar um contínuo
impacto pessoal e social sobre nossas vidas. Estou menos convencido, porém,
de que milhões de seres racionais, capazes de resolver problemas algoritmicamente,
serão incorporados a uma sociedade também racional. Não
estou sequer convencido de que os computadores tornam as pessoas racionais ou
capazes de pensar como um computador e que isso possa, dentro de uns poucos
anos, mudar os padrões de pensamento irracional, que persistem ao longo
da história conhecida. Nenhuma avalanche do pensamento racional, empregando
meios computacionais, irá impedir que nossos descendentes deixem de entender
comportamentos irracionais como o ciúme de um Otelo.
Por outro lado, não faço parte do time que vê nos computadores
uma grande ameaça a todos os valores humanos. Contraditoriamente, sorridentes
engenheiros e sisudos humanistas superestimam o que os computadores podem fazer
por nós.
A não ser que algo totalmente inesperado aconteça, a situação
irá tomar um caminho de meio termo. Os computadores se multiplicarão;
mais e mais pessoas saberão como operá-los; descobertas científicas
e tecnológicas, impensáveis sem tais máquinas, continuarão
a ocorrer. Mas, depois do trabalho, as pessoas voltarão para casa e para
o prosaísmo de sonhos de amor, como sempre. Provavelmente, o xadrez deixará
de ser um jogo interessante para os humanos, mas os jogos realmente importantes
para as pessoas continuarão a causar tanta angústia como agora.
Um ser humano auxiliado por um computador continua a ser humano.
Os computadores são grandes imitadores. Se providos de suficiente informação
sobre como um dado sistema funciona, podem atuar da mesma forma que o dito sistema.
Podem imitar a trajetória de planetas, a circulação do
sangue, o calor de um reator nuclear. As imitações serão
tão acuradas quanto as teorias nas quais se baseiam. Porém, nem
sempre vale a pena imitar tudo que acontece no mundo real. Seria possível,
por exemplo, imitar o farfalhar de cada folha de uma floresta inteira, embora
dificilmente alguém ache que valha a pena tentar tal proeza. Mesmo para
uma máquina, a computação exigida seria muito tediosa.
Algumas coisas são mais simples que a imitação de si mesmas.
Colocar a brisa de uma floresta num computador apenas substituiria a beleza
natural por uma obscenidade matemática cuja correção ninguém
seria capaz de avaliar. Mesmo o mais fanático amante do computador é
capaz de distinguir entre o que é próprio para computadores e
o que é próprio para florestas.
Quando você trabalha com um computador, ele tem meios para ocupar sua
mente, para preenchê-la, até que as funções abstratas
do programa e respectivas interrelações não deixem lugar
para outros pensamentos. Nesses momentos de concentração, é
fácil esquecer a existência de outras coisas no céu e na
terra para além dos limites do programa. Bons cientistas devem constantemente
tomar cuidado para não misturarem teorias com as realidades que as informam.
Durante longos períodos, um cientista pode estar mais envolvido com uma
imitação do que com o mundo real; mas, a longo prazo, o mundo
real prevalece. Ele deve prevalecer. Por mais maravilhosos que seja, os computadores
não podem substituir o mundo por trás da teoria, o mundo dentro
do qual nossos ancestrais evoluíram, o mundo no qual esperamos sobreviver.
Pelos motivos atrás elencados, recebo com alguma dúvida as boas
novas sobre a revolução do computador. Ao contrário de
alguns cenários de ficção científica, não
estamos prestes a colocar a Natureza de joelhos. As robustas banalidades da
vida e da morte continuarão a subsistir como sempre, embora as aparências
possam mudar. Pessoas continuarão a levar vantagens sobre outras, sempre
que puderem, murmurando preces de amor fraterno um dia por semana. E algumas
delas terão a ajuda de computadores.
Acolho com simpatia a disseminação dos microcomputadores, justamente
porque não espero grandes mudanças na natureza humana. Quanto
mais computadores existirem e quanto mais pessoas souberem operá-los,
menos chance haverá de uma elite tecnocrática usá-los para
explorar as massas ignorantes.
Meu receio é que os computadores não se tornem suficientemente
baratos em pouco tempo. Mil dólares é pouco apenas quando comparados
com os milhões necessários para adquirir a mesma quantia de 'inteligência
mecânica' alguns anos atrás. Essa quantia, porém, ainda
é uma larga soma para os pobres, a camada social mais facilmente explorada.
Se tais condições puderem levar os americanos a expandir os direitos
dos cidadãos (Bill of Rights) para incluir a liberdade de computação,
dever-se-á conferir poder ao governo para tornar os computadores acessíveis
a todos os cidadãos. O governo poderá, por exemplo, criar uma
burocracia federal, encarregada de possibilitar o uso dos computadores aos pobres.
Cada bairro teria um edifício onde qualquer interessado aprenderia os
conceitos básicos e as habilidades específicas referidas às
suas próprias necessidades de uso dos computadores. Cada um desses centros
locais de computação empregaria especialistas para manter o sistema
e para assessorar e treinar novos usuários. Alternativamente, caso possamos
deter a tendência de criação de novas burocracias, o serviço
poderia ser mantido por alguma instituição já existente.
A rede escolar é uma boa candidata para esta finalidade. Além
das escolas já serem um lugar natural para o ensino, os estudantes estão
na idade certa para aprender computação e para bem apreciar as
ameaças e maravilhas do computador. Se computação for conteúdo
que deva ingressar na escola, eu a trataria prioritariamente como uma atividade
extracurricular, como algo mais vinculado às dimensões divertidas
dos conteúdos acadêmicos. Qualquer diretriz para poder tornar o
poder do computador acessível a todos não deve necessariamente
ser caminho que faça do computador uma obrigação.
Mesmo que a consciência social não passe a exercer pressão
no sentido aqui proposto, parece inevitável que os computadores venham
a invadir, de uma ou de outra maneira, as escolas. Uma vez que essa perspectiva
parece fatal, o tema central a ser debatido são os termos de rendição.
Mas, antes disso, faz-se necessária uma discussão de fundo.
Algumas vezes, uma idéia se torna predominante devido à ausência
de consciência social com relação ao problema ao qual ela
se refere. Tal idéia, geralmente, é a primeira a ocorrer e ninguém
a desafia, propondo possíveis alternativas. Esse fenômeno, parece-me,
está acontecendo com a questão do uso dos computadores nas escolas.
Se solicitarmos à maioria dos educadores para associarem livremente computador
com ensino, estou razoavelmente seguro de que os melhores informados começarão
a falar sobre EAC - Ensino Assistido por Computador. No campo do EAC, a idéia
implicitamente aceita é a de que os computadores devem ser programados
para imitar professores. Esta não é uma má idéia.
As vantagens dela já são bem conhecidas: questões podem
ser preparadas por especialistas na matéria alvo; informações
sobre o bom ou mau desempenho podem ser comunicadas imediatamente ao estudante;
a instrução pode ser individualizada, permitindo aprendizagem
em tempo apropriado às características de cada estudante; o tempo
dos docentes pode ser melhor empregado em atividades que os professores mais
gostam de desenvolver.
Infelizmente, há também desvantagens. As imitações
computadorizadas de professores não são muito adequadas, pois
a teoria da instrução na qual se baseiam é, no mínimo,
falha - boa parte dos produtos de EAC parece estar fundada na teoria de que
os professores são 'sargentos de exercícios'. Além disso,
os artefatos mecânicos costumam apresentar altas taxas de mortalidade
nas escolas. Os educadores provavelmente procurariam ser mais precisos, observando
que produtos de EAC são melhores para ensinar certas coisas que outras.
Uma vez que o formato usual de EAC é uma espécie de entrada/saída
de símbolos, surpreende um pouco a 'descoberta' de que os melhores resultados
são obtidos quando os estudantes são testados em situações
de entrada/saída de símbolos. Mais especificamente, quando testados
em responder questões ou falar sobre tópicos específicos.
Os educadores, em suas observações mais precisas, diriam, portanto,
que ensinar os alunos a falar sobre tópicos específicos não
exaure as metas de educação. Quando se espera que o aluno faça
algo mais do que emitir respostas verbais a questões pré-formuladas
- pensar, por exemplo -, os tradicionais exercícios não bastam.
Ao levantar essas questões bastante conhecidas, não pretendo tomar
partido a favor ou contra, quero apenas mostrar a direção geral
assumida por muitos educadores a respeito do uso de computadores nas escolas.
Assim como eu, educadores que seguem essa linha irão dar boas vindas
a uma tecnologia nova e barata. Computadores pequenos e baratos poderão,
à semelhança dos livros, passar a integrar o dia a dia das escolas.
Já existem brinquedos para exercitar crianças em aritmética
e vocabulário. Brinquedos mais sofisticados poderão ser produzidos
se os custos de memória ficarem mais acessíveis. Imagine uma criança
carregando o professor para casa todas as tardes... Se isto fosse possível,
será que as crianças se disporiam a voltar às escolas no
dia seguinte?
Os professores, porém, fazem mais do quer exercitar seus alunos. Entre
outras coisas, atuam como fonte de informação. Este aspecto do
ato de ensinar também pode ser imitado mecanicamente. Em outras palavras,
produtos de EAC podem basear-se na teoria de que os professores são respondedores
de questões. Obviamente, esta teoria é quase tão injusta
quanto a teoria do sargento de exercícios. Ela, porém, introduz
a possibilidade de alguma variação nos modelos de EAC.
Eu, por exemplo, estou interessado no possível valor educacional de dicionários
automatizados. Imagino um contexto em que um pequeno dicionário seja
colocado na memória do computador, permitindo que o usuário possa
simplesmente digitar uma palavra no teclado e perguntar ou pela definição
do termo ou por uma lista de vocábulos correlatos. Já existem
na praça sistemas comerciais de dúvidas. Eu gostaria apenas de
expandir estas listas, enriquecendo-as com informações sintáticas
e semânticas, suficientemente interessantes para que as crianças
usassem o sistema. É provável que o uso de dicionários
automatizados aceleraria a expansão do vocabulário. Geralmente,
a extensão do vocabulário é considerada como algo muito
importante. Ela é, por exemplo, um dos mais fidedignos indicadores daquilo
que os testes de inteligência testam.
Quer seja na sua versão clássica, contexto em que a máquina
propõe questões a serem respondidas pelo aluno, quer seja na versão
alternativa, contexto em que o estudante propõe questões a seres
respondidas pelo computador, os produtos de EAC reforçam a idéia
de uma educação voltada para as perguntas - e respostas. Para
mim, é desconcertante tomar consciência de que boa parte da educação
- particularmente da educação superior - se pareça com
o condicionamento de hábitos verbais requeridos para se falar sobre várias
matérias. Mas a fala - mesmo a fala culta - é apenas um sintoma
da verdadeira educação, não um substituto dela.
O pressuposto de que os computadores devem imitar os professores ainda possui
considerável vitalidade. Na verdade, poucas pessoas trabalham com outras
alternativas quando pensam em como ensinar computação para crianças.
A partir dos modelos tradicionais de EAC, um especialista em computadores poderia
escrever uma série de questões e respostas a serem propostas aos
alunos pelo computador; as questões conduziriam os alunos, passo a passo,
pelos complicados caminhos do como falar sobre computadores e suas aplicações.
Ao trabalhar com este tipo de EAC, muitas pessoas descobrem que o produto final
não é muito animador. Falar a respeito de computadores, quando
se tem um computador à disposição, é algo meio bobo.
Uma vez que o computador está à mão, por que não
usá-lo para computar?
Nesse contexto de aplicação (ensino de computação),
a abordagem via EAC assemelha-se ao ensino de natação por meio
de manuais, sem molhar os estudantes. Pior que isto, pois o computador é
ao mesmo tempo manual e sem água, embora o estudante também neste
não se molhe. Os computadores não são bons professores;
podem, porém, ser excelentes computadores.
Geralmente, a sugestão de que as crianças pequenas devem aprender
computação computando levanta a questão do 'touro bravo
na loja de porcelana'. Será que as crianças podem realmente manipular
equipamentos tão caros e tão avançados tecnicamente? A
resposta é sim. Em primeiro lugar, os equipamentos já não
são tão caros. Em segundo lugar, se o conteúdo for muito
técnico para crianças, é possível simplificá-lo.
Seymor Papert, um matemático do Massachussets Institute of Technology,
vem tentando justamente isto, procurando mostrar que as linguagens da programação
não precisam ser proibitivamente complexas. Se Papert e outros obtiverem
sucesso, as crianças pequenas serão capazes de aprender computação
computando.
Aqui, a idéia educacional importante não se restringe a como ensinar
crianças a operar computadores; aliás, este não é
um aspecto que deva merecer atenção especial. Quando computamos,
deve existir algo a ser computado. O ato de computar não ocorre no vazio.
Se tentarmos programar o computador para imitar alguma coisa, devemos aprender
a teoria por trás desta alguma coisa (ou construir nossa própria
teoria sobre a matéria). Se elegermos fazer com que os computadores analisem
sentenças usando parsings, precisamos conhecer (ou inventar) a teoria
ou sintaxe sobre a qual parsings automatizados possam ser construídos.
Se desejarmos computar ou imitar um sistema ecológico, precisamos conhecer
(ou inventar) uma teoria biológica dos nichos ecológicos. E assim
por diante.
Fica claro, portanto, que muitas matérias podem ser ensinadas como parte
da instrução em computação para as crianças.
Tal possibilidade rivaliza-se com o ponto de vista de que os computadores devem
imitar professores. Não sabemos, no momento, se esta possibilidade é
forte o bastante para superar os produtos clássicos do EAC. Muito trabalho
ainda será necessário para que possamos ter uma clara idéia
de suas potencialidades e limitações.
A tendência de encarar novas idéias com um 'sim, mas...' pode não
ser animadora. Não é preciso, porém, superar esta restrição.
No presente caso, o 'sim, mas...' é perfeitamente compreensível.
Assim como os produtos de EAC enfatizam como falar a respeito de uma matéria,
aprender por meio de atividades de computação enfatiza como especular
a respeito de uma área do conhecimento. Mas, se desejarmos educar pessoas
que podem determinar que especulações são verdadeiras no
mundo real (qualquer que seja ele), não devemos aprisioná-las
a um teclado de computador. Elas, de alguma maneira, terão de aprender
como ver o mundo real - linguagens reais, ecossistemas reais etc.
Uma pergunta final. Para onde estas considerações levam a educação
com computadores? Penso que a resposta é clara. Os computadores estão
chegando mas não devemos deixá-los roubar a cena. A longo prazo,
o mundo real sempre prevalece.
Original: Computers in Education: A Non-Orwellian View, in Harper, O. e Stewart,
J. H. Run: Computer Education - Brooks/Cole, Monterey, 1983, p. 17-20. Trad.:
Jarbas Novelino Barato, São Paulo, 1988.