Ensinar
de formas diferentes para pessoas diferentes
Com a Internet estamos começando a ter que modificar a forma de ensinar
e aprender tanto nos cursos presenciais como nos de educação continuada,
a distância. Só vale a pena estarmos juntos fisicamente –
num curso empresarial ou escolar – quando acontece algo significativo,
quando aprendemos mais estando juntos do que pesquisando isoladamente nas nossas
casas. Muitas formas de ensinar hoje não se justificam mais. Perdemos
tempo demais, aprendemos muito pouco, nos desmotivamos continuamente. Tanto
professores como alunos temos a clara sensação de que em muitas
aulas convencionais perdemos muito tempo.
Podemos modificar a forma de ensinar e de aprender. Um ensinar mais compartilhado.
Orientado, coordenado pelo professor, mas com profunda participação
dos alunos, individual e grupalmente, onde as tecnologias nos ajudarão
muito, principalmente as telemáticas.
Ensinar e aprender exigem hoje muito mais flexibilidade espaço-temporal,
pessoal e de grupo, menos conteúdos fixos e processos mais abertos de
pesquisa e de comunicação. Uma das dificuldades atuais é
conciliar a extensão da informação, a variedade das fontes
de acesso, com o aprofundamento da sua compreensão, em espaços
menos rígidos, menos engessados. Temos informações demais
e dificuldade em escolher quais são significativas para nós e
conseguir integrá-las dentro da nossa mente e da nossa vida.
A aquisição da informação, dos dados dependerá
cada vez menos do professor. As tecnologias podem trazer hoje dados, imagens,
resumos de forma rápida e atraente. O papel do professor – o papel
principal – é ajudar o aluno a interpretar esses dados, a relacioná-los,
a contextualizá-los.
Aprender depende também do aluno, de que ele esteja pronto, maduro, para
incorporar a real significação que essa informação
tem para ele, para incorporá-la vivencialmente, emocionalmente. Enquanto
a informação não fizer parte do contexto pessoal –
intelectual e emocional – não se tornará verdadeiramente
significativa, não será aprendida verdadeiramente.
Hoje temos um amplo conhecimento horizontal – sabemos um pouco de muitas
coisas, um pouco de tudo. Falta-nos um conhecimento mais profundo, mais rico,
mais integrado; o conhecimento diferente, desvendador, mais amplo em todas as
dimensões.
Uma parte das nossas dificuldades em ensinar se deve também a mantermos
no nível organizacional e interpessoal formas de gerenciamento autoritário,
pessoas que não estão acompanhando profundamente as mudanças
na educação, que buscam o sucesso imediato, o lucro fácil,
o marketing como estratégia principal.
O professor é um facilitador, que procura ajudar a que cada um consiga
avançar no processo de aprender. Mas tem os limites do conteúdo
programático, do tempo de aula, das normas legais. Ele tem uma grande
liberdade concreta, na forma de conseguir organizar o processo de ensino-aprendizagem,
mas dentro dos parâmetros básicos previstos socialmente.
O aluno não é unicamente nosso cliente que escolhe o que quer.
É um cidadão em desenvolvimento. Há uma interação
entre as expectativas dos alunos, as expectativas institucionais e sociais e
as possibilidades concretas de cada professor. O professor procura facilitar
a fluência, a boa organização e adaptação
do curso a cada aluno, mas há limites que todos levarão em consideração.
A personalidade do professor é decisiva para o bom êxito do ensino-aprendizagem.
Muitos não sabem explorar todas as potencialidades da interação.
Se temos que trabalhar com um grupo, não poderemos provavelmente preencher
todas as expectativas individuais. Procuraremos encontrar o ponto de equilíbrio
entre as expectativas sociais, as do grupo e as individuais. Quando há
uma diferença intransponível entre as expectativas grupais e algumas
expectativas individuais, incontornáveis a curto prazo, ainda assim,
na educação, procuraremos adaptar flexivelmente as propostas,
as técnicas, a avaliação (prazo maior, diferentes formas
de avaliação). Somente no fim deste processo podemos julgar negativamente
– reprovar o outro. É cômodo para o educador jogar sempre
a culpa nos alunos, dizendo que não estão preparados, que são
problemáticos. A criatividade está em encontrar formas de aproximação
dos alunos às nossas propostas, à nossa pessoa.
Não podemos dar aula da mesma forma para alunos diferentes, para grupos
com diferentes motivações. Precisamos adaptar nossa metodologia,
nossas técnicas de comunicação a cada grupo. Tem alunos
que estão prontos para aprender o que temos a oferecer. É a situação
ideal, onde é fácil obter a sua colaboração. Alunos
mais maduros, que necessitam daquele curso ou que escolheram aquela matéria
livremente facilitam nosso trabalho, nos estimulam, colaboram mais facilmente.
Outros alunos, no início do curso podem estar distantes, mas sabendo
chegar até eles, mostrando-nos abertos, confiantes e motivadores, sensibilizando-os
para o que eles vão aprender no nosso curso, respondem bem e se dispõem
a participar. A partir daí torna-se fácil ensinar.
Existem outros que não estão prontos, que são imaturos
ou estão distantes das nossas propostas. Procuraremos aproximá-las
o máximo que pudermos deles, partindo do que eles valorizam, do que para
eles é importante. Mas se, mesmo assim, a resposta é fria, poderemos
apelar para algumas formas de impor tarefas, prazos, avaliações
mais freqüentes, de forma madura, mostrando que é pelo bem deles
e não como forma de vingança nossa. O professor pode impor sem
ser autoritário, sem humilhar, colocando as tarefas de forma clara, calma
e justificada. A imposição é um último recurso do
professor, não primeiro e único. Sempre que for possível,
avançaremos mais pela interação, pela colaboração,
pela pesquisa compartilhada do que pela imposição.
Transformar
a aula em pesquisa e comunicação
Vejo as aulas – nas organizações – como processos
contínuos de comunicação e de pesquisa, onde vamos construíndo
o conhecimento em um equilíbrio entre o individual e o grupal, entre
o professor-coordenador-facilitador e os alunos-participantes ativos. Aula-pesquisa,
onde professor motiva, incentiva, dá os primeiros passos para sensibilizar
o aluno para o valor do que vamos fazer, para a importância da participação
do aluno neste processo. Aluno motivado e com participação ativa
avança mais, facilita todo o nosso trabalho. Depois da sensibilização
– verbal, audiovisual – o aluno – às vezes individualmente
e outras em pequenos grupos – procura suas informações,
faz a sua pesquisa na Internet, em livros, em contato com experiências
significativas, com pessoas ligadas ao tema..
Os grandes temas da matéria são coordenados pelo professor, iniciados
pelo professor, motivados pelo professor, mas pesquisados pelos alunos, às
vezes todos simultaneamente; às vezes, em grupos; às vezes, individualmente.
Uma parte da pesquisa pode ser feita "ao vivo" (juntos fisicamente);
outras, "off line" (cada um pesquisa no seu espaço e tempo
preferidos). Ao vivo, o professor está atento às descobertas,
às dúvidas, ao intercâmbio das informações
(os alunos pesquisam, escolhem, imprimem), ao tratamento das informações.
O professor ajuda, problematiza, incentiva, relaciona.
Ao mesmo tempo, o professor coordena as trocas, os alunos relatam suas descobertas,
socializam suas dúvidas, mostram os resultados de pesquisa. Se possível,
todos recebem uma seleção dos melhores materiais descobertos pelos
alunos, junto com os do professor (textos impressos ou colocados a disposição
pelo professor ou indicados em sites da Internet).
Os alunos levam para casa os textos, onde aprofundam a sua leitura, fazem novas
sínteses, colocam os problemas que os textos sucitam, os relacionam com
a sua realidade.
Essa pesquisa é comunicada em classe para os colegas e o professor procura
ajudar a contextualizar, a ampliar o universo alcançado pelos alunos,
a problematizar, a descobrir novos significados no conjunto das informações
trazidas. Esse caminho de ida e volta, onde todos se envolvem, participam é
fascinante, criativo, cheio de novidades e de avanços. O conhecimento
que é elaborado a partir da própria experiência se torna
muito mais forte e definitivo em nós.
Junto com a pesquisa coletiva, o professor incentiva a pesquisa individual ou
projetos de grupo. Cada aluno – pessoalmente ou em dupla – escolhe
um tema mais específico da matéria e que é do interesse
também do aluno. Esse tema é pesquisado pelo aluno com orientação
do professor. É apresentado à classe. É distribuído
aos colegas. É divulgado na Internet.
É importante neste processo dinâmico de aprender pesquisando, utilizar
todos os recursos, todas as técnicas possíveis por cada professor,
por cada instituição, por cada classe. Vale a pena descobrir as
competências dos alunos que temos em cada classe, que contribuições
podem dar ao nosso curso. Não vamos impor um projeto fechado de curso,
mas um programa com as grandes diretrizes delineadas e onde vamos construíndo
caminhos de aprendizagem em cada etapa, estando atentos – professor e
alunos – para avançar da forma mais rica possível em cada
momento.
Quando
vale a pena encontrar-nos na sala de aula?
Iremos combinando daqui em diante cursos presenciais com virtuais, períodos
de pesquisa mais individual com outros de pesquisa e comunicação
conjunta. Alguns cursos poderemos fazê-los sozinhos com a orientação
virtual de um tutor e em outros será importante compartilhar vivências,
experiências, idéias.
Quando
vale a pena encontrar-nos fisicamente numa sala de aula?
Como regra geral, no começo e no final de um novo tema, de um assunto
importante. No início, para colocar esse tema dentro de um contexto maior,
para motivar os alunos, para que percebam o que vamos pesquisar e para organizar
como vamos pesquisá-lo. Os alunos, iniciados ao novo tema e motivados,
o pesquisam, sob a supervisão do professor e voltam a aula depois de
um tempo para trazer os resultados da pesquisa, para colocá-los em comum.
É o momento final do processo, de trabalhar em cima do que os alunos
apresentaram, de complementar, questionar, relacionar o tema com os demais.
Vale a pena encontrar-nos no início de um processo específico
de aprendizagem e no final, na hora da troca, da contextualização.
Uma parte das aulas pode ser substituída por acompanhamento, monitoramento
de pesquisa, onde o professor dá subsídios para os alunos irem
além das primeiras descobertas, para ajudá-los nas suas dúvidas.
Isso pode ser feito pela Internet, por telefone ou pelo contato pessoal com
o professor.
Na medida em que avançam as tecnologias de comunicação
virtual, o conceito de presencialidade também se altera. Podemos ter
professores externos compartilhando determinadas aulas, um professor de fora
"entrando" por videoconferência na minha aula. Haverá
um intercâmbio muito maior de professores, onde cada um colabora em algum
ponto específico, muitas vezes a distância.
O conceito de curso, de aula também muda. Hoje entendemos por aula um
espaço e tempo determinados. Esse tempo e espaço cada vez serão
mais flexíveis. O professor continua "dando aula" quando está
disponível para receber e responder mensagens dos alunos, quando cria
uma lista de discussão e alimenta continuamente os alunos com textos,
páginas da Internet, fora do horário específico da sua
aula. Há uma possibilidade cada vez mais acentuada de estarmos todos
presentes em muitos tempos e espaços diferentes, quando tanto professores
quanto os alunos estão motivados e entendem a aula como pesquisa e intercâmbio,
supervisionados, animados, incentivados pelo professor.
Poderemos também oferecer cursos predominantemente presenciais e outros
predominantemente virtuais. Isso dependerá do tipo de matéria,
das necessidades concretas de cobrir falta de profissionais em áreas
específicas ou de aproveitar melhor especialistas de outras instituições
que seria difícil contratar.
Educar
o educador
De um professor espera-se, em primeiro lugar, que seja competente na sua especialidade,
que conheça a matéria, que esteja atualizado. Em segundo lugar,
que saiba comunicar-se com os seus alunos, motivá-los, explicar o conteúdo,
manter o grupo atento, entrosado, cooperativo, produtivo.
Muitos se satisfazem em ser competentes no conteúdo de ensino, em dominar
determinada área de conhecimento e em aprimorar-se nas técnicas
de comunicação desse conteúdo. São os professores
bem preparados, que prestam um serviço importante socialmente em troca
de uma remuneração, em geral, mais baixa do que alta.
Na educação, escolar ou empresarial, precisamos de pessoas que
sejam competentes em determinadas áreas de conhecimento, em comunicar
esse conteúdo aos seus alunos, mas também que saibam interagir
de forma mais rica, profunda, vivencial, facilitando a compreensão e
a prática de formas autênticas de viver, de sentir, de aprender,
de comunicar-se. Ao educar facilitamos, num clima de confiança, interações
pessoais e grupais que ultrapassam o conteúdo para, através dele,
ajudar a construir um referencial rico de conhecimento, de emoções
e de práticas.
As mudanças na educação dependem, em primeiro lugar, de
termos educadores maduros intelectual e emocionalmente, pessoas curiosas, entusiasmadas,
abertas, que saibam motivar e dialogar. Pessoas com as quais valha a pena entrar
em contato, porque dele saímos enriquecidos.
Os grandes educadores atraem não só pelas suas idéias,
mas pelo contato pessoal. Dentro ou fora da aula chamam a atenção.
Há sempre algo surpreendente, diferente no que dizem, nas relações
que estabelecem, na sua forma de olhar, na forma de comunicar-se. São
um poço inesgotável de descobertas.
Enquanto isso, boa parte dos professores é previsível, não
nos surpreende; repete fórmulas, sínteses.
O contato com educadores entusiasmados atrai, contagia, estimula, os torna próximos
da maior parte dos alunos. Mesmo que não concordemos com todas as suas
idéias, os respeitamos.
As primeiras reações que o bom professor e educador despertam
no aluno são a confiança, a admiração e o entusiasmo.
Isso facilita enormemente o processo de ensino-aprendizagem.
As mudanças na educação dependem também de termos
administradores, diretores e coordenadores mais abertos, que entendam todas
as dimensões que estão envolvidas no processo pedagógico,
além das empresariais ligadas ao lucro; que apoiem os professores inovadores,
que equilibrem o gerenciamento empresarial, tecnológico e o humano, contribuindo
para que haja um ambiente de maior inovação, intercâmbio
e comunicação.
As mudanças na educação dependem também dos alunos.
Alunos curiosos, motivados, facilitam enormemente o processo, estimulam as melhores
qualidades do professor, tornam-se interlocutores lúcidos e parceiros
de caminhada do professor-educador.
Alunos motivados aprendem e ensinam, avançam mais, ajudam o professor
a ajudá-los melhor. Alunos que provêm de famílias abertas,
que apoiam as mudanças, que estimulam afetivamente os filhos, que desenvolvem
ambientes culturalmente ricos, aprendem mais rapidamente, crescem mais confiantes
e se tornam pessoas mais produtivas.
Educação
para a autonomia e para a cooperação
A educação avança pouco – nas organizações
empresariais e nas escolas – porque ainda estamos profundamente inseridos
em organizações autoritárias, em processos de ensino e
aprendizagem controladores, com educadores pouco livres, mal resolvidos, que
repetem mais do que pesquisam, que impõem mais do que se comunicam, que
não acreditam no seu próprio potencial nem no dos seus alunos,
que desconhecem o quanto eles e seus alunos podem realizar!.
Um dos eixos das mudanças na educação passa pela transformação
da educação em um processo de comunicação autêntica,
aberta entre professores e alunos, principalmente, mas também incluindo
administradores e a comunidade (todos os envolvidos no processo organizacional).
Só vale a pena ser educador dentro de um contexto comunicacional participativo,
interativo, vivencial. Só aprendemos profundamente dentro deste contexto.
Não vale a pena ensinar dentro de estruturas autoritárias e ensinar
de forma autoritária. Pode até ser mais eficiente a curto prazo
– os alunos aprendem rapidamente determinados conteúdos programáticos
– mas não aprendem a ser pessoas, a ser cidadãos.
Sei que parece uma ingenuidade falar de comunicação autêntica
numa sociedade altamente competitiva, onde cada um se expõe até
determiando ponto e, na maior parte das vezes, se esconde, em processos de comunicação
aparentes, cheios de desconfiança, quando não de interações
destrutivas. As organizações que quiserem evoluir terão
que aprender a reeducar-se em ambientes mais significativos de confiança,
de cooperação, de autenticidade. Isso as fará crescer mais,
estar mais atentas às mudanças necessárias.
Com ou sem tecnologias avançadas podemos vivenciar processos participativos
de compartilhamento de ensinar e aprender (poder distribuído) através
da comunicação mais aberta, confiante, de motivação
constante, de integração de todas as possibilidades da aula-pesquisa/aula-comunicação,
num processo dinâmico e amplo de informação inovadora, reelaborada
pessoalmente e em grupo, de integração do objeto de estudo em
todas as dimensões pessoais: cognitivas, emotivas, sociais, éticas
e utilizando todas as habilidades disponíveis do professor e do aluno.
É importante educar para a autonomia, para que cada um encontre o seu
próprio ritmo de aprendizagem e, ao mesmo tempo, é importante
educar para a cooperação, para aprender em grupo, para intercambiar
idéias, participar de projetos, realizar pesquisas em conjunto.
Só podemos educar para a autonomia, para a liberdade com autonomia e
liberdade. Uma das tarefas mais urgentes é educar o educador para uma
nova relação no processo de ensinar e aprender, mais aberta, participativa,
respeitosa do ritmo da cada aluno, das habilidades específicas de cada
um.
O caminho para a autonomia acontece combinando equilibradamente a interação
e a interiorização. Pela interação aprendemos, nos
expressamos, confrontamos nossas experiências, idéias, realizações;
pela interação buscamos ser aceitos, acolhidos pela sociedade,
pelos colegas, por alguns grupos significativos. Pela interiorização
fazemos a integração de tudo, das idéias, interações,
realizações em nós, vamos encontrando nossa síntese,
nossa identidade, nossa marca pessoal, nossa diferença.
A tecnologia nos propicia interações mais amplas, que combinam
o presencial e o virtual. Somos solicitados continuamente a voltar-nos para
fora, a distrair-nos, a copiar modelos externos, o que dificulta o processo
de interiorização, de personalização. O educador
precisa estar atento para utilizar a tecnologia como integração
e não como distração ou fuga.
O educador autêntico é humilde e confiante. Mostra o que sabe e,
ao mesmo tempo está atento ao que não sabe, ao novo. Mostra para
o aluno a complexidade do aprender, a sua ignorância, suas dificuldades.
Ensina, aprendendo a relativizar, a valorizar a diferença, a aceitar
o provisório. Aprender é passar da incerteza a uma certeza provisória
que dá lugar a novas descobertas e a novas sínteses.
Experiências
pessoais de ensino utilizando a Internet
Venho desenvolvendo algumas experiências no ensino de graduação
e de pós-graduação na Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo. Criei uma página pessoal
na Internet, no endereço www.eca.usp.br/prof/moran. Nela constam as disciplinas
de pós-graduação – Redes eletrônicas na Educação
e Novas Tecnologias para uma Nova Educação – e três
de graduação – Novas Fronteiras da Televisão, Legislação
e Ética do Radialismo e Mercadologia de Rádio e Televisão
– com o programa e alguns textos meus e dos meus alunos. O roteiro básico
é o seguinte: no começo do semestre, cada aluno escolhe um assunto
específico dentro da matéria, vai pesquisando-o na Internet e
na biblioteca. Ao mesmo tempo, pesquisamos também temas básicos
do curso. O aluno apresenta os resultados da sua pesquisa específica
na classe e depois pode divulgá-los, se quiser, através da Internet.
Disponho de duas salas de aula com dez computadores em uma e quatorze em outra,
ligados à Internet por fibra ótica, para vinte alunos, em média.
Utilizamos essa sala a cada duas ou três semanas. As outras aulas acontecem
na sala convencional.
O fato de ver o seu nome na Internet e a possibilidade de divulgar os seus trabalhos
e pesquisas, exerce uma forte motivação nos alunos, os estimula
a participar mais em todas as atividades do curso. Enquanto preparam os trabalhos
pessoais, vou desenvolvendo com eles algumas atividades.
Começamos com uma aula introdutória para os que não estão
familiarizados com a Internet. Nela aprendemos a conhecer e a usar as principais
ferramentas. Fazemos pesquisa livre, em vários programas de busca. Cadastramos
a cada aluno para que tenha o seu e mail pessoal (na própria universidade
ou em sites que oferecem endereços eletrônicos gratuitamente).
Num segundo momento, todos pesquisamos um tópico importante do programa.
É importante sensibilizar o aluno antes para o que se quer conseguir
neste momento, neste tópico. Se o aluno tem claro ou encontra valor no
que vai pesquisar, o fará com mais rapidez e eficiência. O professor
precisa estar atento, porque a tendência na Internet é para a dispersão
fácil. O intercâmbio constante de resultados, a supervisão
do professor podem ajudar a obter melhores resultados. Eles vão gravando
os endereços, artigos e imagens mais interessantes em disquete e também
fazem anotações escritas, com rápidos comentários
sobre o que estão salvando. As descobertas mais importantes são
comunicadas aos colegas. Imprimem os textos mais significativos.
No final, os alunos comunicam os principais resultados da sua busca e encontramos
os principais pontos de apoio para analisar o tema do dia. Professor e alunos
relacionam as coincidências e divergências entre os resultados encontrados
e as informações já conhecidas em reflexões anteriores,
em livros e revistas.
O meu papel é o de acompanhar cada aluno, incentivá-lo, resolver
suas dúvidas, divulgar as melhores descobertas. As aulas na Internet
se alternam com as aulas habituais, onde acrescentamos textos escritos, vídeos
para aprofundar os temas pesquisados inicialmente na Internet. Posteriormente,
cada aluno desenvolve um tema específico de pesquisa, que ele escolhe,
conciliando o seu interesse pessoal e o da matéria. É interessante
que os alunos escolham algum assunto dentro do programa que esteja mais próximo
do que eles valorizam mais. Essas pesquisas podem ser realizadas dentro e fora
do período de aula. Estou junto com eles, dando dicas, tirando dúvidas,
anotando descobertas. Esses temas específicos são mais tarde apresentados
em classe para os colegas. O professor complementa, questiona, relaciona essas
apresentações com a matéria como um todo. Alguns alunos
criam suas páginas pessoais e outros entregam somente os resultados das
suas pesquisas para colocá-los na minha página.
Além das aulas, acontece um estimulante processo de comunicação
virtual, junto com o presencial. Eles podem pesquisar em uma sala especial em
qualquer horário, se houver máquinas livres. Os alunos me procuram
mais para atendimento específico na minha sala, e também enviam
mensagens eletrônicas. Como todos têm e-mail, envio com freqüência
textos, endereços, idéias, sugestões em uma lista que crio
para o curso. Isso estimula, principalmente na pós-graduação,
o intercâmbio, a troca também entre colegas, a inserção
de novos materiais trazidos pelos próprios alunos.
A navegação precisa de bom senso, gosto estético e intuição.
Bom senso para não deter-se, diante de tantas possibilidades, em todas
elas, sabendo selecionar, em rápidas comparações, as mais
importantes. A intuição é um radar que vamos desenvolvendo
de "clicar" o mouse nos links que nos levarão mais perto do
que procuramos. A intuição nos leva a aprender por tentativa,
acerto e erro. Às vezes passaremos bastante tempo sem achar algo importante
e, de repente, se estivermos atentos, conseguiremos um artigo fundamental, uma
página esclarecedora. O gosto estético nos ajuda a reconhecer
e a apreciar páginas elaboradas com cuidado, com bom gosto, com integração
de imagem e texto. Principalmente para os alunos, o estético é
uma qualidade fundamental de atração. Uma página bem apresentada,
com recursos atraentes, é imediatamente selecionada, pesquisada.
Ensinar utilizando a Internet exige uma forte dose de atenção
do professor. Diante de tantas possibilidades de busca, a própria navegação
se torna mais sedutora do que o necessário trabalho de interpretação.
Os alunos tendem a dispersar-se diante de tantas conexões possíveis,
de endereços dentro de outros endereços, de imagens e textos que
se sucedem ininterruptamente. Tendem a acumular muitos textos, lugares, idéias,
que ficam gravados, impressos, anotados. Colocam os dados em seqüência
mais do que em confronto. Copiam os endereços, os artigos uns ao lado
dos outros, sem a devida triagem.
Creio que isso se deve a uma primeira etapa de deslumbramento diante de tantas
possibilidades que a Internet oferece. É mais atraente navegar, descobrir
coisas novas do que analisá-las, compará-las, separando o que
é essencial do acidental, hierarquizando idéias, assinalando coincidências
e divergências. Por outro lado, isso reforça uma atitude consumista
dos jovens diante da produção cultural audiovisual. Ver equivale,
na cabeça de muitos, a compreender e há um certo ver superficial,
rápido, guloso sem o devido tempo de reflexão, de aprofundamento,
de cortejamento com outras leituras. Os alunos se impressionam primeiro com
as páginas mais bonitas, que exibem mais imagens, animações,
sons. As imagens animadas exercem um fascínio semelhante às do
cinema, vídeo e televisão. Os lugares menos atraentes visualmente
costumam ser deixados em segundo plano, o que acarreta, às vezes, perda
de informações de grande valor.
A Internet é uma tecnologia que facilita a motivação dos
alunos, pela novidade e pelas possibilidades inesgotáveis de pesquisa
que oferece. Essa motivação aumenta se o professor a faz em um
clima de confiança, de abertura, de cordialidade com os alunos. Mais
que a tecnologia o que facilita o processo de ensino-aprendizagem é a
capacidade de comunicação autêntica do professor, de estabelecer
relações de confiança com os seus alunos, pelo equilíbrio,
competência e simpatia com que atua.
O aluno desenvolve a aprendizagem cooperativa, a pesquisa em grupo, a troca
de resultados. A interação bem sucedida aumenta a aprendizagem.
Em alguns casos há uma competição excessiva, monopólio
de determinados alunos sobre o grupo. Mas, no conjunto, a cooperação
prevalece.
A Internet ajuda a desenvolver a intuição, a flexibilidade mental,
a adaptação a ritmos diferentes. A intuição, porque
as informações vão sendo descobertas por acerto e erro,
por conexões "escondidas". As conexões não são
lineares, vão "linkando-se" por hipertextos, textos interconectados,
mas ocultos, com inúmeras possibilidades diferentes de navegação.
Desenvolve a flexibilidade, porque a maior parte das seqüências são
imprevisíveis, abertas. A mesma pessoa costuma ter dificuldades em refazer
a mesma navegação duas vezes. Ajuda na adaptação
a ritmos diferentes: a Internet permite a pesquisa individual, em que cada aluno
vai no seu próprio ritmo e a pesquisa em grupo, em que se desenvolve
a aprendizagem colaborativa.
Na Internet também desenvolvemos formas novas de comunicação,
principalmente escrita. Escrevemos de forma mais aberta, hipertextual, conectada,
multilingüística, aproximando texto e imagem. Agora começamos
a incorporar sons e imagens em movimento. A possibilidade de divulgar páginas
pessoais e grupais na Internet gera uma grande motivação, visibilidade,
responsabilidade para professores e alunos. Todos se esforçam por escrever
bem, por comunicar melhor as suas idéias, para serem bem aceitos, para
"não fazer feio". Alguns dos endereços mais interessantes
ou visitados da Internet no Brasil são feitos por adolescentes ou jovens.
Outro resultado comum à maior parte dos projetos na Internet confirma
a riqueza de interações que surgem, os contatos virtuais, as amizades,
as trocas constantes com outros colegas, tanto por parte de professores como
dos alunos. Os contatos virtuais se transformam, quando é possível,
em presenciais. A comunicação afetiva, a criação
de amigos em diferentes países se transforma em um grande resultado individual
e coletivo dos projetos.
Alguns
problemas no uso da Internet na educação
Há uma certa confusão entre informação e conhecimento.
Temos muitos dados, muitas informações disponíveis. Na
informação os dados estão organizados dentro de uma lógica,
de um código, de uma estrutura determinada. Conhecer é integrar
a informação no nosso referencial, no nosso paradigma, apropriando-a,
tornando-a significativa para nós. O conhecimento não se passa,
o conhecimento se cria, se constrói.
Alguns alunos não aceitam facilmente essa mudança na forma de
ensinar e de aprender. Estão acostumados a receber tudo pronto do professor,
e esperam que ele continue "dando aula", como sinônimo de ele
falar e os alunos escutarem. Alguns professores também criticam essa
nova forma, porque parece uma forma de não dar aula, de ficar "brincando"
de aula...
Há facilidade de dispersão. Muitos alunos se perdem no emaranhado
de possibilidades de navegação. Não procuram o que está
combinado deixando-se arrastar para áreas de interesse pessoal. É
fácil perder tempo com informações pouco significativas,
ficando na periferia dos assuntos, sem aprofundá-los, sem integrá-los
num paradigma consistente. Conhecer se dá ao filtrar, selecionar, comparar,
avaliar, sintetizar, contextualizar o que é mais relevante, significativo.
Constato também a impaciência de muitos alunos por mudar de um
endereço para outro. Essa impaciência os leva a aprofundar pouco
as possibilidades que há em cada página encontrada. Os alunos,
principalmente os mais jovens, "passeiam" pelas páginas da
Internet, descobrindo muitas coisas interessantes, enquanto deixam por afobação
outras tantas, tão ou mais importantes, de lado.
Conclusão
Podemos ensinar e aprender com programas que incluam o melhor da educação
presencial com as novas formas de comunicação virtual. Há
momentos em que vale a pena encontrar-nos fisicamente,- no começo e no
final de um assunto ou de um curso. Há outros em que aprendemos mais
estando cada um no seu espaço habiutal, mas conectados com os demais
colegas e professores, para intercâmbio constante, tornando real o conceito
de educação permanente. Ensino a distância não é
só um "fast-food" onde o aluno vai lá e se serve de
algo pronto. Ensino a distância é ajudar os participantes a que
equilibrem as necessidades e habilidades pessoais com a participação
em grupos -presenciais e virtuais - onde avançamos rapidamente, trocamos
experiências, dúvidas e resultados.
Tanto nos cursos convencionais como nos a distância teremos que aprender
a lidar com a informação e o conhecimento de formas novas, pesquisando
muito e comunicando-nos constantemente. Isso nos fará avançar
mais rapidamente na compreensão integral dos assuntos específicos,
integrando-os num contexto pessoal, emocional e intelectual mais rico e transformador.
Assim poderemos aprender a mudar nossas idéias, sentimentos e valores
onde se fizer necessário.
É importante sermos professores-educadores com um amadurecimento intelectual,
emocional e comunicacional que facilite todo o processo de organização
da aprendizagem. Pessoas abertas, sensíveis, humanas, que valorizem mais
a busca que o resultado pronto, o estímulo que a repreensão, o
apoio que a crítica, capazes de estabelecer formas democráticas
de pesquisa e de comunicação.
Necessitamos de muitas pessoas livres nas empresas e escolas que modifiquem
as estruturas arcaicas, autoritárias do ensino - escolar e gerencial
-. Só pessoas livres, autônomas – ou em processo de libertação
– podem educar para a liberdade, podem educar para a autonomia, podem
transformar a sociedade. Só pessoas livres merecem o diploma de educador.
Faremos com as tecnologias mais avançadas o mesmo que fazemos conosco,
com os outros, com a vida. Se somos pessoas abertas, as utilizaremos para comunicar-nos
mais, para interagir melhor. Se somos pessoas fechadas, desconfiadas, utilizaremos
as tecnologias de forma defensiva, superficial. Se somos pessoas autoritárias,
utilizaremos as tecnologias para controlar, para aumentar o nosso poder. O poder
de interação não está fundamentalmente nas tecnologias
mas nas nossas mentes.
Ensinar com as novas mídias será uma revolução,
se mudarmos simultaneamente os paradigmas convencionais do ensino, que mantêm
distantes professores e alunos. Caso contrário conseguiremos dar um verniz
de modernidade, sem mexer no essencial. A Internet é um novo meio de
comunicação, ainda incipiente, mas que pode ajudar-nos a rever,
a ampliar e a modificar muitas das formas atuais de ensinar e de aprender.
Bibliografia
DODGE, Bernis. WebQuests: a technique for Internet-based learning. The Distance
Educator. San Diego, vol 1, n.2, p.10-13, Summer 1995.
FERREIRA, Sueli. Introducão às Redes Eletrônicas de Comunicação.
Ciências da Informação.Brasília, 23(2):258-263, maio/agosto,
1994.
GARDNER, Howard. As estruturas da mente; a teoria das inteligências múltiplas.
Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.
GILDER, George. Vida após a televisão; vencendo na revolução
digital. Rio de Janeiro, Ediouro, 1996.
ELLSWORTH, Jill. Education on the Internet. Indianápolis, Sams Publishing,
1994.
ESTABROOK, Noel et al. Using UseNet Newsgroups. Indianopolis, Que, 1995.
HOINEFF, Nelson. A nova televisão; desmassificação e o
impasse das grandes redes. Rio de Janeiro. Delume Dumará, 1996.
LASMAR, Tereza Jorge. Usos educacionais da Internet: A contribuição
das redes eletrônicas para o desenvolvimento de programas educacionais.
Brasília, Faculdade de Educação, 1995. Dissertação
de Mestrado.
LINARD, Monique & BELISLE, Claire. Comp'act: new competencies of training
actors with new information and communication technologies. Ecully, CNRS, 1995
LIPMAN, Matthew. O pensar na educação. Petrópolis, Vozes,
1995.
MOLL, Luis (org). Vygotsky e a educação. Porto Alegre, Artes Médicas,
1996.
MORAN, José Manuel. Mudanças na comunicação pessoal;
Gerenciamento integrado da comunicação pessoal, social e tecnológica.
São Paulo, Paulinas, 1998.
Como utilizar a Internet na Educação. Revista Ciência da
Informação, vol 26, n.2, maio-agosto, 1997; páginas 146-153.
Leituras dos Meios de Comunicação. São Paulo, Ed. Pancast,
1993.
Como ver televisão. São Paulo, Paulinas, 1991.
NOVOA, Antônio (org.). Vidas de Professores. Porto, Porto Editora, 1992.
PAPERT, Seymour. A máquina das crianças: repensando a escola na
era da informática. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.
POSTMANN, Neil. Tecnopolio. São Paulo, Nobel, 1994.
SEABRA, Carlos. Usos da telemática na educação. In Acesso;
Revista de Educação e Informática. São Paulo, v.5,
n.10, p.4-11, julho, 1995.